
Se tá cheio, ninguém entra. Seja gente num recinto, ideia na cabeça, oportunidade no caminho ou um novo amor no coração. Mesmo sabendo disso, estamos todos fazendo questão de preencher o tempo até que ele finalmente perca o status de "livre".
Esquecemos de reservar aquelas horas sagradas para o ócio alimentando, assim, uma culpa absolutamente descabida quando nos percebemos fazendo nada. As mentes andam inquietas demais e nossos dedinhos frenéticos estão sempre atrás de um mouse que nos leve, em apenas um click, ao outro lado do mundo ou ao infinito mar de informações, na maioria das vezes inúteis, sobre a vida alheia.
O fato é que, todos os dias, somos bombardeados com um número tão grande de estímulos e afazeres, que acaba sendo necessário parar e criar o vazio. Não falo aqui do vazio que angustia, que exaure, que deprime. Falo do vazio positivo, daquele que se faz necessário e nos torna mais criativos, mais donos de nós mesmos.
A gente se acostumou a viver no automático, infelizmente. Substituímos trabalhos e amores como se não houvesse amanhã. Tudo com muita pressa, sem permitir que o luto dê o ar de sua graça. Que tal dar ao vazio a chance de fazer algumas participações especiais nesse cenário? Ele não precisa do papel principal. Como coadjuvante, já bate um bolão. Mas, será que essa mania de preencher lacunas não seria uma eterna fuga de nós mesmos?
Há de existir um equilíbrio entre essa loucura do mundo moderno e a calma, que ainda encontramos em poucos recantos do nosso ser. É necessário parar durante o caminho e, diante da bifurcação, estudar para onde ir. Toda escolha vem acompanhada de dúvida, toda renovação vem com uma parcela de medo. E nós, sem o risco responsável, sem a novidade, sem a vontade de pagar pra ver, seríamos pessoas muito menos interessantes.
É difícil parar e olhar para dentro, conversar com si mesmo, enfrentar os próprios monstros e limitações. Mas, quando a gente percebe que não há problema nisso, que todos somos perfeitos e imperfeitos, suscetíveis ao erro e ao acerto e, ao mesmo tempo, resilientes fica mais fácil e prazeroso gozar da vida e habitar esse mundo onde o vazio se faz cada vez mais imprescindível.
Isabella Saes é jornalista e locutora dos sete canais Telecine
retrato Ismar Ingber





