Revista Vizoo

Carolina Nakamura mistura brasileira testada e aprovada

Carol 5

Ela ralou muito. Nascida na Tijuca, essa filha de pai descendente de japonês e mãe loura, branca e carioca descobriu o que queria aos nove anos: ser bailarina.

Mas a grana era curta para arcar com aulas e roupas do balé. Foi então que a mãe lançou o desafio à filha: um ano de aulas pagas para ela aprender o necessário pra passar na seleção da, gratuita, Escola Estadual de Dança Maria Olenewa, primeira instituição de dança clássica fundada no Brasil. Se não fosse bem sucedida, encerraria ali sua incursão no mundo da dança. Não deu outra e, na frente de uma banca de doze professores, foi aprovada. A partir dali, e por mais nove anos, até se formar, a rotina foi pesada. Escola de manhã, uma passada em casa para almoço, e escola de dança até oito da noite.

Aos 18 anos, já formada, percebeu a dificuldade de viver do ofício que aprendera arduamente. Pintou então um estágio não remunerado no Centro de Movimento Deborah Colker, que ela abraçou durante um ano. Chegou a dar aulas para crianças, mas os ganhos não cobriam as despesas. Foi então, como muitas adolescentes, tentar a sorte nas lojas de shoppings. A dança ficou um pouco de lado, exceto pela participação na comissão de frente da Beija Flor, vaga conquistada em mais um teste. Lá, desfilou em dois carnavais e derrubou a tese que japonesa não samba. Em uma das suas passagens pelos shoppings cariocas, enquanto promovia perfumes no BarraShopping, recebeu o convite que iniciaria sua carreira de modelo.

Um cara a viu borrifando os perfumes, parou e perguntou se ela tinha fotos. Carol mentiu e disse que sim. O sujeito, Philippe, falou para ela passar na loja Philippe Martin com o book, pois a coleção da grife era inspirada na Indochina; ela respondeu positivamente. Passou na loja receosa e verificou as credenciais do futuro cliente: ele era o dono.

Já que não era armação, saiu correndo para pedir ajuda a um amigo publicitário e fazer as fotos que não tinha. Arrumou-as e, na semana seguinte, estava fotografando o catálogo da marca.

Dali foi pra Bahia, onde desfilou sem saber andar na passarela. Saiu-se bem e os convites começaram a aparecer. Em um deles, para a Bridgestone, com cachê de 25 mil reais, ela, ainda na fase de testes, chutou o balde do emprego na loja de perfumes e se mandou para o casting em São Paulo. Se não faturasse o trabalho, a grana ia acabar de vez. Ganhou e foi para a Argentina filmar. Voltou ao Brasil com o cachê, mas desempregada. Para o sustento, arrumou um emprego em uma boate GLS em Ipanema. Carol sabia que a dança ainda era o destino final, mas a batalha da subsistência falava mais alto.

Eis que surge outro teste, desta vez para uma montagem teatral de “A bela e a fera”, também na Argentina. O papel era para dançar e cantar em playback. Mais uma avaliação positiva e lá foi ela, de ônibus, para o país vizinho. Esforço posteriormente recompensado, pois o coreógrafo do espetáculo era o mesmo do balé do Faustão, Sylvio Lemgruber. De volta ao Rio, ele a convocou para mais um casting de oito etapas. Resultado: há sete anos Carol faz parte do elenco do programa.

De quebra, em 2009 teve que superar o maior dos testes: após quatro cirurgias mal sucedidas e alguns erros médicos, retirou um rim. Como vocês podem ver, ela está ótima, restou apenas uma charmosa cicatriz. Pouco tempo depois, Fausto Silva escolheu duas meninas, entre as dez do corpo de baile, para trabalhar junto à plateia. Claro que ela foi escolhida. Hoje, Carol trabalha junto ao público, ao vivo, sem roteiro, sem ponto, para milhões de pessoas. “O Fausto é uma pessoa supergenerosa; quantos apresentadores dão chances, quanto mais para uma bailarina?” Lembrando os percalços superados até agora, ela se emociona; mas se diz pronta para mais desafios. Está estudando teatro na CAL (Casa das Artes de Laranjeiras) e se prepara para uma faculdade de comunicação.

Provavelmente, mais testes virão; mas Carol não está nem aí. Nesse ensaio, como ela mesmo diz, se comportou naturalmente. “Não tenho problema nenhum em tirar a roupa, mas é muito importante a linguagem do trabalho em questão. Para fazer uma revista masculina, só por um cachê extraordinário, o que até agora não pintou.”

Tem outra questão que pesa em suas decisões: o filho Juan, de 12 anos. O garoto, na verdade, é a grande inspiração da bailarina; era nele que ela pensava quando tinha que vencer as batalhas do dia a dia. “Me preocupo muito com meu filho. Há pouco, fiz um comercial de cerveja em que meu par era um anão. Meu filho foi zoado na escola. Ficavam perguntando a ele se o pai era anão. Essa molecada é muito má; imagina o que aconteceria se eu fosse capa de uma revista masculina. Tenho que pensar e pesar tudo direitinho.” A vida segue para Carol, pra frente, mas sempre com um teste ali e outro acolá. Mas com essa mistura brasileira e a simpatia que exala pelo corpo escultural, aliada à garra, ela sairá vitoriosa, mais uma vez.

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